Unidade 6 – Deficiência Mental
- Comportamentos observáveis na escola sobre:
- relacionamentos: com professores/as, funcionários, colegas, outros;
- questões de aprendizagem;
- movimentos para a inclusão da escola (avaliação, acessibilidade, adaptações curriculares, serviços de apoio);
- movimentos para a inclusão do aluno; e
- envolvimento da família no processo de inclusão escolar.
Dando continuidade ao Estudo de Caso...
O aluno observado apresenta um relacionamento instável com colegas e professores, isto é, ora amável e comportado, ora explosivo e inconseqüente. Possui um núcleo de amizades pequeno, com cerca de 5 amigos, que conquistou desde os primeiros dias de aula em nossa escola, porém, até mesmo estes, por vezes são vítimas de seu descontrole. Por ser alto (já com 16 anos), Ricardo impõe respeito aos demais alunos da escola, que normalmente não aceitam suas provocações, a atitude destes alunos deve-se também as informações que prestamos sobre a deficiência mental apresentada pelo colega, sensibilizando-os sobre importância de incluí-lo nas atividades escolares e também para que haja tolerância com algumas atitudes dele.
Os momentos de rebeldia de Ricardo não são freqüentes, resumem-se a poucos dias no mês que está sem fazer uso do medicamento, nas demais, ainda que não possa ser considerado um aluno tranqüilo, é capaz de dialogar e interagir nas atividades escolares naturalmente.
Sentimos, eu e demais colegas docentes, uma dificuldade muito grande em manter Ricardo na sala de aula, por vezes, pede pra ir ao banheiro e não volta, normalmente encontramos o menino na quadra de esportes, observando uma turma de alunos na educação física.
Com relação ao relacionamento com funcionários da escola, acredito que nunca houve nenhum problema grave envolvendo o menino.
Os colegas, na sua maioria, ainda evitam se agrupar-se com ele devido as atitudes violentas que apresenta. Creio que muitos deles evitam Ricardo por recomendação dos próprios pais, que acreditam que a aproximação com o menino pode significar “perigo”, já que no seu histórico consta agressão física a colegas em outras escolas.
Desde que Ricardo veio para esta escola, temos nos empenhado bastante para que ele possa avançar cognitivamente e para que seja o mais independente possível nas tarefas escolares. Bem sabemos de sua historia de vida e de suas dificuldades cognitivas, e buscamos por vários meios envolvê-lo em todas as atividades de sala de aula.
Sua dificuldade em consolidar o que lhe é ensinado na sala de aula é evidente, é como se ele “esquecesse” no dia seguinte o que foi lhe passado no dia anterior. Daí a grande importância de adaptar o currículo a este aluno, fazendo com que ele possa acompanhar a turma conforme suas limitações.
Como descrevi na Unidade anterior, depois que veio para nossa escola, já em séries finais, Ricardo não poderia mais estar freqüentando a sala de reforço, atendimento oferecido apenas à alunos das séries iniciais das escolas estaduais, porém iniciamos um trabalho com professores voluntários que se dirigiam a escola em turno oposto para oferecer ao menino e a outros alunos, um auxilio pedagógico para suas aprendizagens, no entanto compareceu apenas nas primeiras aulas.
Logo no inicio de nossa convivência, percebi que ele adorava atividades no laboratório de informática, o que me estimulou a sempre que possível levar a turma para este ambiente. Mesmo que o meu plano de aula contemplasse uma reflexão sobre um texto lido, decidia que esta reflexão fosse realizada na sala de aula e posteriormente digitada no computador. Assim, varias outras professoras, perceberam este estimulo, não só com Ricardo, mas com outras crianças que se sentem motivadas a realizar atividades no equipamento. Percebemos, inclusive, que a qualidade das produções escritas melhorou bastante depois desta alternativa.
Cada avanço de Ricardo é encarado como uma grande vitória, de forma que não podemos desejar que acompanhe os outros nas aprendizagens curriculares. Neste contexto foi preciso repensar e reorganizar o nosso trabalho, a partir da aceitação dele em sala de aula como alguém capaz, necessitando apenas de auxilio e acompanhamento constante.
Infelizmente, falta à Ricardo o envolvimento e o empenho da família no seu processo de aprendizagem e inserção social, o que o deixa em desvantagem na sua inclusão. Sentimos que seus pais não prestam o apoio que Ricardo precisa, deixando-o abandonado, sem inseri-lo numa vida social digna e responsável. Dificilmente comparecem em reuniões da escola ou respondem aos nossos chamados particulares. Em eventos promovidos pela escola, mesmo que Ricardo tenha assumido algum compromisso, nem ele mesmo comparece.
No período em que está em casa, não recebe uma orientação para realizar tarefas escolares ou leituras sugeridas, normalmente este tempo ocioso é preenchido com atitudes inconvenientes e ilícitas pelo menino.
Com certeza se Ricardo tivesse uma estrutura familiar presente e interessada pelo seu desenvolvimento cognitivo e capacitação profissional, sua historia seria diferente, pois percebemos que a escola somente, mesmo assumindo seu compromisso com a inclusão deste aluno, se torna impotente frente a algumas situações.
Convém ressaltar, porém que sem a escola oferecendo este serviço de apoio, não só o pedagógico, mas muitas vezes o social e psicológico, seria impossível reintegra-lo na sociedade, pois “... se a educação sozinha não transformar a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda." (Paulo Freire). Deixando evidente que a inclusão é uma ação possível.
Leituras para esta Unidade:
- 1. “Os alunos com deficiência mental”, de Alfredo Fierro (2007:193-214) * Este texto esta disponível na pasta da disciplina nos Pólos.
- 2. Capítulo 1: “Deficiência Mental”, de Maria Sylvia Cardoso Carneiro (2008:13-24). * Este texto esta disponível na pasta da disciplina nos Pólos.
|
Leituras complementares:
"Prevenção às deficiências". Disponível em: http://www.apraespi.org.br/Prev_def.htm
"O Sujeito com deficiência mental: processos de aprendizagem na perspectiva histórico-cultural." Alexandra Ayach Anache e Albertina Mitjáns Martinez (2007:43-53). * Este texto está disponível na pasta da disciplina nos Pólos.
Os itens 1 e 2 do Capítulo I do livro indicado (Atendimento Educacional Especializado - AEE - Deficiência Mental disponível em AEE - Deficiência Mental).
Texto: A produção textual de alunos com deficiência mental. Rita Vieira de Figueiredo. Revista Inclusão nº 3, página 26, disponível em: www.mec.gov.br.
Texto: "Quando eu entrei na escola... memórias de passagens escolares", de Mônica Kassar.
Texto: "Deficiência mental e família: implicações para o desenvolvimento da criança", de Silva e Dessen.
Texto “Deficiência Mental, Imaginação e Mediação Social: um estudo sobre o brincar” (Pinto; Góes, 2006).
Comments (3)
Graciela Rodrigues said
at 8:58 pm on Jun 10, 2009
Olá Gislaine! Excelente apresentação dos dados sobre a escolarização do aluno e o contexto social. Apenas a questão da tolerância que ainda me incomoda pois dá a idéia de "ter que suportar algo ou alguém por obrigação" e acredito que não é isto que queremos com alunos que de diferem dos demais. Pende sobre este conceito. Abraços.
Gislaine Cardoso Aguiar said
at 4:01 pm on Jun 11, 2009
Olá professora Graciela!
Voltei para esclarecer em que sentido usei o termo “tolerância” em meu estudo de caso.
Muitas vezes nos deparamos em sala de aula com situações onde as pequenas diferenças, seja na forma de pensar, de agir e de sentir não são aceitas e /ou toleradas e passam a ser motivos de grandes conflitos e exclusões.
Costumo inclusive trabalhar esta questão com meus alunos, pois acredito que seja fundamental repensarmos nossa postura frente ao outro, no sentido de conviver com as diferentes percepções, ritmos e até mesmo comprometimento com uma atividade. É neste sentido que considero a tolerância uma qualidade a ser cultivada por todo ser humano.
Beijos prof. Graciela
Gislaine
Graciela Rodrigues said
at 8:51 pm on Jun 14, 2009
Entendi Gislaine sua forma de entender este conceito. Bjs
You don't have permission to comment on this page.